ÍNDICE:

  1. O Povo no Mistério da Trindade

  2. Liturgia: Sinal de esperança na vida do povo

  3. Quem canta nas celebrações litúrgicas?

  4. Vocação: uma cação que se escuta com os ouvidos do coração

  5. O canto da conversão: uma Quaresma interpelada por uma Campanha da Fraternidade

  6. O canto que a vida (en)canta

  7. Mística, Mistagogia e Liturgia: por uma experiência mais vivencial

  8. "Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe"

  9. "Sejamos um para que o mundo creia"

  10. "Bem Aventurado os pobres": A vida em tempo de Quaresma

  11. Liturgia e Simplicidade de vida

  12. Calar-se diante do Mistério

  13. O Canto Pascal: anúncio de libertação

 


01. O Povo no Mistério da Trindade


“Glória seja ao Pai, glória seja ao Filho, glória ao Espírito Santo, seu amor também. Ele é um só Deus, em pessoas as três, agora e sempre, sempre, amém!” Quantas vezes na vida já cantamos essas palavras. Que seja em nossas rezas de terço, em nossas novenas, nos ofícios das horas... Afinados ou desafinados; Crianças, adultos ou velhos... Todos celebram, todos dão glórias, com a mesma fé aquilo que Deus é em sua essência.

 

Ninguém é convidado a decifrar o mistério do Deus Uno e Trino, por mais que muitos entre nós tenhamos inteligências acuradas. Diante de tal mistério somos uma gota d’água do imenso mar diante dos nossos olhos. Um mar que nem mesmo o tempo e o espaço poderão o abraçar. Caríssimos irmãos de caminhada, a solenidade que celebramos nos convida a contemplar com o coração o Deus que se faz próximo de nós, como Ele mesmo fez com Moisés e todo o povo (cf. Dt 4). Felizes somos nós, os filhos de Deus, porque somos chamados participar desta herança (cf. Sl 32), que é o Reino dos Céus, a Vida Eterna (cf. Rm 8). E assim, enquanto ainda não chega essa plenitude da vida, nós podemos aqui na terra, vê-lo e adorá-lo com os olhos da fé (cf. Mt 28), isto é, dar glórias as suas grandezas.

 

Desde o princípio do mundo, quando todas as coisas foram feitas, ninguém jamais conheceu um Deus tão próximo do seu povo; um Deus capaz de se inclinar e escutar a aflição do povo (cf. Sl 83); um Deus que desce ao encontro do povo, que fala com o povo... Um Deus que resplandece em sinais e prodígios diante dos olhos do povo (cf. Dt 4,34). O Senhor sempre quis estar próximo e dar a salvação aos seus. Houve uma relação amorosa, que cria comunhão e familiaridade, pois Deus fala ao coração, indica caminhos, conduz o povo à libertação.

 

Mas, poderíamos nos perguntar: “Onde está o nosso Deus? Onde Ele está?” Existem tantas guerras, tantas violências, tantos maltratos, tantas impiedades... Nesses dias, quando ligamos nossas TVs somos bombardeados por tantas angústias sócio-políticas, pelo sofrimento de tantos cristãos, tantas pessoas sofrendo graves tipos de violência... Onde está o nosso Deus? Ele não é próximo? – E poderiam surgir outros inúmeros questionamentos. Mas, muito mais do que próximo, nosso Deus tem um rosto, um rosto que pode ser contemplado na justiça e na retidão, no amor e na bondade (cf. Sl 32), mesmo no sofrimento. Sendo assim, todo aquele que não é justo, que não é reto, é como a terra seca e árida que não deixa Deus, a planta viçosa, florescer e dar seus frutos.

 

Muitos não reconhecem este Deus e friamente duvidam (cf. Mt 28,17). Mas, a fé não exclui a dúvida, porém a dúvida constante faz o homem desacreditar. E esse desacreditar não motiva a contemplação e, aos olhos de quem observa, tudo perde a razão de ser – podemos novamente remeter nosso olhar para a realidade política atual. No entanto, não é porque os olhos não conseguem contemplar que o Contemplável deixa de ser o que é. Deus sempre será aquele que possui todo o poder no Céu e na terra (cf. Mt 28,19) – Sempre será o “ Deus Conosco” até o fim dos tempos (cf. Mt 28,20). Não precisamos com nossa linguagem finita procurar o indizível, mas, podemos dar glórias, contemplar e adorar tão grande mistério de salvação.

 

Nós, os batizados, em nome deste Deus Trindade, Pai-Filho-Espírito Santo, somos convidados a estabelecer uma relação íntima com Ele (cf. Rm 8). A sermos filhos por meio do Filho (cf. Gl 4,4). Como diz S. Agostinho, cada homem é imagem da Trindade, isto é, cada homem é chamado a viver em comunhão – Há uma inter-relação! A vida só pode glorificar a Deus de modo concreto, precisamos deixar nossa liturgia fecundar o mundo, precisamos aguçar nossos sentidos para perceber Deus  no dia-a-dia e deixá-lo ser Deus: Essa é a missão da grande família de Deus! É nesta relação que o homem, enquanto peregrino na terra, sacia sua sede de ver a Deus. Pois, esta dimensão relacional traz ao homem o perfume de Deus, abrindo o apetite de nossa alma para a plena glorificação (cf. Rm 8,17).

 

Caros irmãos, esta a Solenidade da Santíssima Trindade mais uma vez ratifica em nossa vida, que mesmo diante de tantas “perplexidades” que nos abordam cotidianamente, acreditamos em um Deus que não é distante e nem é inacessível, nem está atrás de grandes cortinados cheio de rendas, brilhos e holofotes. Um Deus simples que não nos criou órfãos. Ao contrário, Ele é a Paternidade, a Filiação e o Amor, que ao seu modo oferece aos homens a vida plena e verdadeira, alicerçada na justiça e na retidão – precisamos, cada um a seu modo, descobrir o melhor jeito de lutar, na comunhão (unindo forças, fé, corações e mentes), por aquilo que acreditamos. Ontem eram professores, militares, servidores públicos; hoje são os caminhoneiros... E quando serão todos nós?

 

Deus sabe o quanto queremos compreender a nossa vida Nele. Já que não existe vida fora do seu Criador, que Ele nos ajude a compreender nossa vida em comunhão com esta grande família, que é a Igreja. Para assim reconhecemos que todos somos “filhos” (“herdeiros”) de um único Reino – precisamos trabalhar juntos, acreditar numa mesma causa, viver num só coração... Que nas lutas do dia-a-dia simplesmente emanem de nossos lábios: “Abba”, como gesto de uma expressão íntima, que provém de uma relação marcada pelo amor, pela confiança e pela ternura. Que em nossa fragilidade nunca ousemos abarcar nosso Deus. Mas, que deixemos ser envoltos por tão grande mistério da Trindade, afim de que o que nós labutamos hoje seja um eterno louvor a Deus. Assim seja!

Abraços musicais de

Wallison Rodrigues



02. Liturgia: sinal de esperança na vida do povo

No silêncio de uma terra vermelha,
manifesta-se o Deus de Israel – Esperança
viva de libertação.


Alguns tempos atrás pude fazer algumas experiências magníficas: dentre elas, uma na Prelazia de São Félix do Araguaia. Foram momentos surpreendentes – surpresas de Deus – que cravaram em mim uma ponta de Esperança. Esperança que vai além de uma crença emocional de possibilidades. Neste caso, uma esperança se aproxima muito da fé, é o acreditar no indizível que se faz presente no sensível, verdade divina na vida do povo. É no sabor destas vivências que gostaria de escrever sobre Liturgia.

 

A vida cristã tem como fonte a Sagrada Liturgia[1], não simplesmente como algo que sustenta a vida, mas como ápice, ou seja, cume desta vida cristã. É cume porque a existência é um caminho progressivo à plena comunhão com Deus. Por isso, a liturgia possibilita viver a própria vida na Vida Divina que é atualizada em nossas celebrações[2]. Tudo isso se dá na vida, prolongando na história o grande memorial do Senhor.


Antes de chegar à Prelazia de São Félix do Araguaia, uma pessoa me escreveu dizendo que a “Prelazia tem uma história que difere das outras Igrejas. Dizem que ela começou do avesso. Antes das igrejas, as escolas; antes dos padres, o povo, a política; antes de tudo, a vida; paralelo à fé, a luta pela terra e pela dignidade; paralelo à eucaristia, a luta pelo pão de cada dia”. Confesso, achei interessante, até considerei algo parecido como “serviço do povo” – uma liturgia.


Até então as coisas faziam muito sentido, pois era como se concretizasse uma parte da Oração do Senhor – “O Pão nosso de cada dia nos dai hoje...”. Um Pão que significa o próprio Cristo vivo no Altar, alimento espiritual e, também que significa o alimento terreno, que dá forças para o trabalho diário. Esta deve ser a compreensão de toda comunidade eclesial!


A Prelazia é marcada nacionalmente como ‘a Igreja modelo’, que tem entranhada em si o jeito de ser comunidade/Igreja. Paralelamente, lá encontrei um povo sedento de Deus, sedento de um Pastor... Liturgia também é vida em comunidade e comunidade é sinal da presença de Deus. Me perguntava: onde estava a liturgia e sua compreensão? Onde estava Deus? Onde estava a vida do povo? Era como se eu olhasse três pontos distintos.


No entanto, entre as conversas e andanças, havia algo que apresentou como elo entre toda essa realidade: a Esperança. Porém, que não anulava a realidade, mas a deixava explícita, nua e crua diante dos olhos. Então entendi que a liturgia ali acontecia enquanto esperança na vida do povo. Pois, naquela terra vermelha, Deus se manifestava e queria ser conhecido. Este é o mistério de Deus que em cada celebração se torna uma epifania divina na vida de cada cristão.


Liturgia também é esperança. Uma esperança que se faz libertação, que não tira a alegria dos olhos mesmo em meios aos sofrimentos; que não permite o verde da vida se amarelar... É força, é confiança, é fé. Mas, sem dúvida, estamos diante de uma Igreja que carece de formação. Isso nos ensina que ornamentar Igrejas, preparar leituras, ensaiar bem os cantos, entre outros, não é o principal de uma autêntica liturgia.


A liturgia não serve para encher nossos ouvidos de palavras bonitas e bem cantadas, muito menos para impregnar em nossas roupas o odor da fumaça do incenso. A liturgia serve para ser sinal latente de esperança na vida. Um sinal que impulsiona a sempre mais caminhar rumo ao Eterno, razão da nossa Esperança cristã – este é o autêntico espírito litúrgico, que manifesta com a vida o mistério divino.


Para refletir: O que é ser Igreja? A Vida está em sintonia com a Liturgia e o Ser Comunidade? Como ser sinal de esperança no mundo? Como encontrar Deus, razão de toda esperança?



Sugestão de Leitura: Gaudium et Spes – Concílio Vaticano II


Abração cheio de esperança,
Wallison Rodrigues



03. Quem canta nas celebrações litúrgicas?


Iniciamos nossa reflexão com a seguinte motivação: “Que vosso modo de celebrar seja a própria expressão de vossa fé!” (João Paulo II).  Expressão convidativa a uma reflexão mais profunda sobre as músicas que cantamos em nossas liturgias. Haja vista, mais importante antes de tudo, ressaltar quem é cantor em nossas celebrações litúrgicas. Sabemos que toda a Igreja constitui o corpo místico de Cristo. Muitos membros, que mutuamente estão a serviço uns dos outros (cf. 1Cor 14,5; Ef 4,12). Logo, o lugar de quem canta a liturgia não é de direito profissional. Referimo-nos a uma função ministerial, abraçada por homens e mulheres (cf. Lumem Gentium, 34) que celebram os mistérios de sua fé.


Por força do Batismo, toda a assembleia – os fieis - é convidada a participar das celebrações de maneira plena, consciente e ativa. De modo que se usem os meios necessários e prudentes a restabelecer e favorecer a participação do povo na liturgia. (cf. Sacrossanctum Concilium, 14). Fonseca (obra: Quem canta? O que cantar na liturgia? p.14) nos relembra que a participação dos fieis foi uma das principais preocupações que desencadeou o Vaticano II. Mas, para que isso aconteça é importante pensar em um caminho pedagógico e formativo, de preparações cuidadosas e  de zelo fiel às orientações da Igreja.  


Quando ligamos nossos rádios, tvs, quando acessamos a internet, quando estamos em nossas comunidades ou visitamos outras cidades... Somos envoltos da riqueza ministerial que é a nossa Igreja. Notem, no canto litúrgico temos: compositores, animadores, salmistas, instrumentistas, corais, grupos de cantores, entre outros. Todos estes ministérios são cheios de importância, pois formam um ÚNICO MINISTÉRIO LITÚRGICO. Mas, muitas vezes este ministério não tem sido desempenhado de maneira mais adequada. Em sua maioria falta formação litúrgico-musical – Eis nossa grande preocupação. Fonseca (p.15) diz que este fator acarreta grandes dificuldades, tais como: a falta de critérios teológico-litúrgicos na escolha de repertórios, maneira incorreta de tocar os instrumentos musicais, falta de entrosamento entre cantores e instrumentistas, cantores e assembleia e, ouso acrescentar, entre cantores/instrumentistas e o presidente da celebração. 


Sem o auxílio de uma formação adequada para o desempenho do nosso ministério, caímos na tentação de cantar PARA O POVO. Vale lembrar que cantamos COM O POVO! Não levar em conta a presença do povo é fazer deles meros expectadores, que simplesmente observam e espera o “momento” acontecer. Não respeitar o direito do povo de celebrar ativa e plenamente a liturgia, é não levar em conta o autor daquela “reunião”, feita sob a ação do Espírito Santo. Sabemos e acreditamos que bendito é Aquele que reúne o seu povo em seu amor. Ou seja, Deus chamou todos os fieis, os reuniu para “louvar de todo o coração e crescer espiritualmente, deixando-se santificar pelo Espírito Santo, que atua poderosamente na celebração litúrgica” (Fonsesa apud Buyst).


Se levarmos em conta a essência de nossa vocação ministerial – dom divino que o Senhor nos confiou para o bem dos nossos irmãos – não deixamos ser afetados por “estrelismos” ou modos inadequados de projetar e exibir as vaidades pessoais. O “EU” que celebra, é um “Eu” comunitário... Cantar a liturgia é cantar com toda a assembleia ali reunida. Viver a nossa vocação é fazer o povo cantar o mistério celebrado. A música tem a força de unir todas aquelas diferentes pessoas que vieram celebrar e formar um único corpo. Devemos insistir na vivência desta ideia de unidade e comunhão. Quem dera que com um estetoscópio, lá de fora, nas paredes de nossas Igrejas, pudéssemos escutar um único coração a pulsar lá de dentro. Não é uma realidade distante, pois depende de mim e de você... Depende de nós!


Sugestões práticas para que o povo possa cantar e bem celebrar: 1) Você deve ter segurança do canto; 2) O material que você vai usar (microfone, instrumento...) deve estar arrumados antes da assembleia se reunir; 3) Alguns minutos antes de começar a celebração, é importante passar o refrão dos cantos que são novos (Salmo, Comunhão, Respostas...); 4) Elogiar e incentivar a comunidade a cantar, pois você simplesmente irá sustentar o canto. É possível?


 Para refletirmos: Nas celebrações em sua comunidade, você é capaz de sentir-se unido aos outros membros formando um único corpo? Como é a participação da assembleia em sua comunidade? Existe uma integração entre músicos, equipes de liturgia e presidência nas celebrações? Se modo de celebrar é a expressão do modo que acreditamos... Como você celebra em sua comunidade?

 

Sugestão de leitura: FONSECA, Joaquim. Quem canta? O que cantar na liturgia? Vol. 6 da Coleção Liturgia e Música. São Paulo: Paulus, 2008.

 

Até logo,


Um abraço fraterno e musical de
Wallison Rodrigues



04. Vocação: uma canção que se escuta com os "ouvidos do coração"


A música proporcionou em muitas ocasiões um ambiente fecundo para o discernimento vocacional. Tantas canções foram compostas. Umas a partir de experiências pessoais, outras de textos e fatos bíblicos... Todas expressando a voz que emana do coração de Deus e vem ao encontro de cada pessoa. Há, sim, no coração de Deus uma musicalidade que seduz e que é mais forte do que nós mesmos (cf. Jr 20,7-13).


Vocação é uma canção que se escuta com os “ouvidos do coração”. Deixar-se inspirar é ser dócil a este Deus que nos chama. É deixar acontecer o encontro de duas liberdades, humana e divina, que anseiam pela felicidade – todo homem é chamado às bem-aventuranças, chamado a ser feliz. Toda pessoa é convocada a estar em comunhão com Deus. É consagrada a construir e anunciar o Reino de Deus aqui na terra. Por isso, vocação é um compreender Deus na vida e, em cada “passo”, assumir um propósito da missão.

Uma boa música vocacional é aquela que impulsiona a uma acolhida deste Deus que chama e se manifesta em cada coração.


A música é um instrumento louvável no processo vocacional. Na vida da Igreja ela assume uma função pedagógica. Ela aponta caminhos, desperta outros horizontes, chama a atenção, impulsiona, dá fervor... Mas, jamais supera a própria voz de Deus. Uma boa música vocacional é aquela que impulsiona a uma acolhida deste Deus que chama e se manifesta em cada coração. Afinal, diante de tudo o que ela apresenta no quesito vocacional, “a decisão é tua” (Pe. Zezinho), a decisão é de quem a escuta.


O tema deste mês de Agosto – vocação – muito mais do que grandes reflexões, exige sinceridade conosco mesmo e com os outros. Muitos homens e mulheres já estão com longos passos dentro de um processo vocacional. O importante é se comprometer com o caminho que está sendo percorrido. Por isso, vocação também exige educação! É preciso educar-se a ouvir a voz de Deus.


Acredito que Deus, por muitas vezes, usou da música para chamar homens e mulheres para o serviço do Reino. Reporto-me à comunidade em que cresci (Americano do Brasil/GO): antes de todas as celebrações na Igreja o povo era convocado à Santa Missa pelas músicas que ressoavam nas cornetas da Igreja. Quantas vezes eu fui para Igreja cantarolando as músicas que escutava: “Estou pensando em Deus, estou pensando no amor...” ‘Se ouvires a voz do vento chamando sem cessar...’” (Pe. Zezinho). Sem dúvidas, aquilo era um chamado...


Mas, já estamos em outra época, onde em muitas comunidades, já nem podem mais usar seus autofalantes das Igrejas por mandatos judiciais. Muitas pessoas já não se dão à arte de contemplar uma música, no sentido poético e melódico. Talvez, atualmente, música seja somente entretenimento, um evento acústico que perpassa a existência, mas sem muito significado – ‘modismo’? Parece que estamos diante de um grande desafio.


Contudo, a música, ainda hoje, continua sendo um instrumento vocacional. No entanto, precisa ser atualizada para que chegue ao coração de todas as pessoas. Mas, será que essa atualização se daria com novos ouvidos capazes de compreender o acervo musical que já temos? Ou precisamos de um novo modo de compor para que se chegue aos ouvidos de hoje?


Na verdade, eu não tenho respostas. Concluo evidenciando que a música já proporcionou muito no ambiente vocacional e, ainda hoje, deve continuar convocando à comunhão com Deus. Em um mundo – refiro-me as pessoas – carente de Deus e de cuidados humano-afetivos, temos que levar as canções da nossa vida que permitam um diálogo entre Deus e seu povo. Músicas que possibilitem a troca de vida e amor, que elevem a alma, que façam a efusão de corações humanos com o coração divino. Por fim, que ofereçam significados e sentidos a partir de Jesus Cristo, abrindo espaços concretos para a vivência daquilo que acreditamos e somos chamados a ser.


Abraços de
Wallison Rodrigues
(Músico e compositor)



05. O canto da Conversão:

uma Quaresma interpelada por uma Campanha da Fraternidade


Com as cinzas em nossas cabeças, sem flores, sem aquele instrumental estrondoso, com a cor roxa nos paramentos, sem o Aleluia e o Glória, irrompe em nossa vida o tempo quaresmal. “Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris” (cf. Gn 3,19) – a humanidade curva sua cabeça e recorda a sua condição, por vezes, realidade de pobreza e de morte. Mas, implora o perdão misericordioso de Deus para que seus sentidos possam celebrar o mistério pascal que se aproxima: com Cristo vencendo o pecado e a morte.


Só Deus pode fazer do nada – do pó – brotar a vida alegre e santa. Do santuário do coração de cada fiel a Igreja canta essa certeza em oração. É um canto de conversão que exige penitência, afim de que a ‘chama batismal brilhe novamente com intensidade’ (cf. canto “Senhor, tende compaixão” - Wallison Rodrigues). Pois, é na força do batismo que “os homens são inseridos no mistério pascal de Cristo, com ele mortos, sepultados, ressuscitados” (SC 6). Uma nova lógica se aproxima: de pecadores à santidade, de podres sepulturas à mensageiros do Ressuscitado.


A liturgia oferece orientações simples e bonitas para vivermos positivamente o tempo quaresmal: oração, esmola e jejum. Além da espiritualidade, a Igreja no Brasil aponta caminhos concretos de solidariedade e fraternidade a serem considerados, neste ano “os biomas brasileiros e a defesa da vida” – Campanha da Fraternidade (CF) 2017. “Cultivar e guardar a criação” (cf. Gn 2, 15), uma responsabilidade de todos. O povo de Deus é chamado a ver a realidade, julgar e agir, à luz da Palavra de Deus. Mas, por que uma CF iniciar em tempo de quaresma? Nosso foco não é a conversão, a santidade...?


Precisamos esclarecer alguns pontos: Antes de tudo o tempo quaresmal nos instiga à um autoconhecimento que, por vezes, exige sacrifício, renúncia, conversão... atitudes no caminho de quem encontrou com Cristo e quer conhecê-lo plenamente. Por isso, a CF não é uma campanha de quaresma. Inicia-se em tempo de quaresma, em tempo de silêncio e conversão, mas que terminará no final do ano litúrgico. A Campanha deseja ser uma ação concreta da evangelização – isso traz suas fortes consequências: como um prolongamento da Catequese (Escola da Fé) situada nos encontros , círculos de estudos, grupos de reflexão etc. Portanto, o seu lugar primeiro não é a Liturgia...


Mas, a dimensão celebrativa proposta nos subsídios da CF tem algo a ver com essa conversão? Acredito que as celebrações propostas pela Campanha supõem uma comunidade já evangelizada e catequizada, mas que ainda é peregrina e neste caminhar procura conformar sua vida à de Cristo. No entanto, este elemento “conversão” que se clama em tempo quaresmal, é diferente da conversão na Iniciação à Vida Cristã (essa supõe outros elementos: eleição, iluminação, purificação, exorcismos... sacramentos). O tempo de quaresma não é para essa "conversão inicial", até porque para quem não é "convertido", não tem diferença o tempo litúrgico ­ em si... Participa da liturgia somente os que são fieis ou que já manifestaram sua conversão inicial.


De modo que, a CF só repercutirá na liturgia quaresmal quando as ações catequéticas e evangelizadoras forem intensas na comunidade eclesial, ­ isto pode-se chamar de 'testemunho'. Por que? A conversão, a priori, não são aos cortadores de madeira, aos pecuaristas... O convite à mudança de vida está dirigido a nós fieis e que também podemos ser cortadores, pecuaristas etc. Não somos os “bons homens” que gritamos com nossos cantos e orações para os outros mudarem de vida. Ao contrário, a campanha também propõe silêncio, meditação, inquietação... Conversão primeiro dentro da própria Igreja, a nós diáconos, padres, bispos, religiosos, ministros e leigos, que muitas vezes somos os primeiros a poluir, devastar, explorar... – O que nós cristãos estamos fazendo com a criação?


Agora, se nos fiéis/comunidade não há ‘um relacionamento pessoal com Cristo, que revela o homem ao homem’, o problema não está no tempo ou modo de campanha, e sim na superficialidade da Iniciação à Vida Cristã. Por isso, a CF pressupõe que você seja iniciado na vida cristã, que você primeiro tenha feito experiência de Deus.... Do contrário, até o silêncio quaresmal se faz estéril. A lógica da CF estar em tempo de quaresma é para viver a fraternidade até que ela se transforme em celebração no Tríduo Pascal (que não necessariamente se dará após 40 de deserto).


A experiência de libertação pode ser hoje, amanhã ou já acontecida... Mas, somente para quem já se pôs neste êxodo rumo à Terra Prometida, ­ isto é, à nós que já somos iniciados na fé. Sobre este último ponto, sem dúvidas, a CF por iniciar em tempo de quaresma deve respeitar a espiritualidade do tempo litúrgico regente, visando a linha ­força quaresmal (oração, jejum e esmola) e a Palavra de Deus (em seus eixos temáticos dos anos A, B e C) – Haja vista, ela conhece muito bem o seu lugar!


Por fim, gostaria que cada um vivesse e me ajudasse a viver bem este tempo de Quaresma e de Campanha. Sobretudo, para que não seja mais um evento dentro do ano litúrgico ou um evento do calendário da Igreja no Brasil. Já chega de tantos eventos! O ser Igreja é muito mais do que eventualidades, tudo tende a empobrecer quando reduzimos nossa vida eclesial – em sua liturgia e pastoral – a eventos. Raramente eles provocam mudança de vida... Na verdade, eles geram mais e mais eventos, uma realidade pontual, até grandiosa, mas que facilmente pode ser esquecida ou substituída por outro evento.


Preparemos e façamos experiência da misericórdia divina nesta quaresma, renasçamos do pó nesta Páscoa: sejamos testemunhas do Evangelho em nossas ações simples e concretas (CF) na realidade em que vivemos.

Abração musical,

Wallison Rodrigues



06. O canto que a vida (en)canta


O universo que nos cerca é musical... De sons simples e naturais – como o cantar dos pássaros, as ventosidades sonoras que nosso organismo emite, entre muitos outros – aos sons rebuscados e criados (como um concerto de violas, a bateria, entre outros). Segundo, Fonseca (obra: Quem canta? O que cantar na liturgia? p.45) é uma linguagem que expressa a vida humana em várias dimensões. Por exemplo, existe uma obra de Arnaldo Antunes, intitulada “Música para ouvir”[1], expressa muito bem este assunto, vale a pena conferir.


A vida canta... Mas, qual é o canto que a vida canta? Ou seria a vida que encanta o canto? Apresenta-se curioso o fato, referindo a música e depois propriamente ao canto litúrgico, é que muitas vezes, o encaramos como bens culturais, meios de dar prestígio a uma instituição e até embelezamento às cerimônias. Mas, na verdade, devem ser entendidos como “subsídios simbólicos a ser aproveitados por comunidades concretas, de forma realmente significativa e participativa” (cf. A música litúrgica no Brasil, estudo 79/CNBB, nº144). Interessante ressaltarmos é que existem comunidades concretas, ou seja, um povo que possui uma característica, uma identidade, entre outros. Sendo assim, bom seria que cada comunidade tivesse “repertórios litúrgicos”, que além de levar em conta a música ritual que expresse o mistério de Cristo, também pudesse brotar de suas próprias raízes culturais, isto é, do “jeito de cada povo”.


Quanto a música mais próxima estiver do povo, culturalmente falando, mais viva na memória ela se faz, e este é um elemento que facilita a participação do povo. Se o canto, como afirma a Sacrosanctum Concilium, 112, é parte necessária e integrante da liturgia, porque as expressões culturais e religiosas também não haveriam de ser? – estamos entrando num tema complicado, pois temos diversas expressões culturais e religiosas que nos cercam.


O canto nasce da experiência da vida. Até mesmo nossos cantos litúrgicos, em que muitas vezes, são taxados como “feios”, “sem graça”, “muito estranhos e difíceis”... Brotam do âmago de cada experiência de fé, nascem das entranhas das comunidades. “Comunidades concretas”, onde nenhuma comunidade celebrante esta nos ares, sem raízes e traços histórico-culturais. Eis alguns exemplos:


1. O “Glória” de Pe. Geraldo Leite Bastos, de inspiração africana (1960)²: figura_2


 2. A música de comunhão para Quaresma, “Como raiar, raiar do dia”³, de Reginaldo Veloso, eivada de traços nordestinos:
figura_2


3. Ou ainda, este “Glória”, de Wallison Rodrigues, de inspiração goiana, na Folia de reis (2013):
figura_3


Enfim, estamos falando de um canto que nasce da vida e que ganha sabor e vivacidade em nossas celebrações, quando é cantado na própria vida. Quando não somente nossos lábios se encarregam de cantá-lo. Mas, referimos a uma boca que esta em sintonia com o coração. O documento 79 da CNBB, assim diz: “Nada a temer, nada a perder, se cada assembleia tem sua personalidade musical, como cada pessoa tem seu rosto, seu semblante, desde que se possa reconhecer, sob traços tão diferentes, o único semblante da Esposa de Cristo, a sua Igreja” (nº187).

 

Não estamos falando de um querer agradar a todos, pois deste jeito não agradaríamos a ninguém, e ofenderíamos a própria essência da celebração. Mas, é algo que vai além, é um perceber que existe uma coerência entre assembleia e o mistério celebrado. Se isso não ocorre, cada domingo em que celebramos a Palavra e a Eucaristia é mais um em meio a tantos já “idos” e outros que ainda estão por vir. Seria uma ação ou um cantar que não traz sentido a própria vida?


 Para refletir: Você já percebeu este universo musical em sua volta? Como você vive o canto em na comunidade? Existem (pré)conceitos sobre a música litúrgica? Qual é a disponibilidade que os membros das equipes de canto/coral tem para aprenderem novos cantos? Com que força o cantar também poderia brotar da vida?

Indicação de leitura: A música litúrgica no Brasil, doc. 79, CNBB.
Disponível em: http://www.cnbb.org.br/component/docman/doc_view/340-a-musica-liturgica-no-brasil-estudo-cnbb-79

 

Abração fraterno e musical, de
Wallison Rodrigues

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¹“Música para ouvir”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=rWNUaU8lWAE. Acesso em 06/03/2015.
²CD Tríduo Pascal II, faixa 06 – Gravadora Paulus. Disponível em: http://www.paulus.com.br/loja/cd-triduo-pascal-ii-vigilia-pascal_p_2265.html
³CD QUARESMA XIV (CNBB), Faixa 07 – Gravadora Paulus. Disponível em: http://www.paulus.com.br/loja/cd-liturgia-xiv-quaresma-anos-b-e-c_p_2284.html




07. Mística, Mistagogia e Liturgia:

Por uma experiência mais vivencial


O Povo de Deus – a Igreja – precisa sempre embeber-se do Mistério divino. Numa dinâmica mistagógica que possibilita sentir o sabor da fé e da vida nas celebrações litúrgicas. Este é um significativo passo para não se estagnar em um conhecimento puramente teórico do Crucificado/Ressuscitado. Sendo assim, se o homem não mergulha no Mistério de Deus, ele corre o risco de não responder a sua vocação batismal: ser um em-com-por Cristo. A linguagem da liturgia é a mistagogia! É um método condutor, vivo e dinâmico, que não deixa a espiritualidade da assembleia se embotar, nem perder seu brilho teológico e litúrgico.


Paralelamente, nota-se na atual conjuntura eclesial um ‘sentimento coletivo’ de “cansaço”. Muitas lideranças e agentes de pastorais se queixam da participação dos fiéis nas atividades comunitárias. Por muitas vezes, a assembleia se apresenta como “fria” e sem expressão ativa. Assim, os projetos não caminham, os membros de pastorais e movimentos conservam suas estruturas e não apresentam perspectivas de novas ações.


                Direcionando um pouco mais o olhar em alguns aspectos da realidade eclesial, nota-se que também há ministros ordenados e coordenadores de pastorais/comunidades com sede e ânsia no trabalho paroquial/comunitário. Isso é louvável! No entanto, em contra partida, nestes intentos não há mística e nem mistagogia na espiritualidade. Sendo que, muitos são os carismas dentro da comunidade, mas sem a espiritualidade – que é o próprio Jesus Cristo – o carisma não se sustenta.


                Wellistony (2013) apresenta uma questão pertinente frente a tudo isso: Os padres – e acrescento: os líderes e agentes de pastorais – precisam ser “místicos”. Atualmente, muitos leigos estão “avançando para águas mais profundas”. Estão procurando crescer e aprofundar a dimensão espiritual da vida. Enquanto isso, os responsáveis pelas comunidades estão ficando à margem vendo os “barcos” se distanciarem. Uma vez distantes, como novamente se aproximar quando se está em ‘alto mar’?!


                Existem leigos sedentos, mas convém ressaltar que também há aqueles que não assumem um compromisso na comunidade. Muitos são os ministros ativos e conscientes, mas em contra partida, existem aqueles que entraram no modismo do “cansaço”. E estes, por sua vez, são um grupo significante. Não se justifica, mas, como exigir da comunidade se as próprias lideranças não experimentam o Mistério!? Como falar do Mistério se os próprios ministros não o vivencia?!  


                Karl Rahner parece estar certo quando afirmou que “no futuro o cristão ou será místico ou não será cristão”. Mas isso não exime a responsabilidade do leigo em agir de modo ativo, pleno e consciente sua própria vocação batismal.  Se antes do Vaticano II os fiéis não participavam ativamente da divina liturgia porque o rito era em latim, era muito diferente da cultura local, porque o ministro se colocava distante do povo... E hoje, por que será?


                Acredito que quando os fiéis pedem uma missa diferente e animada, não é exatamente isso que querem dizer. Porque podem até celebrar uma missa ‘bem animada’ cheia de firulas, no entanto, provavelmente no próximo mês estarão pedindo outra coisa diferente... Quando os fiéis pedem algo assim, somente estão usando da linguagem que está ao seu alcance. Mas, na verdade, o que querem dizer é que faltam às celebrações um caráter místico e mistagógico, faltam sabor e vivacidade. A perfeita liturgia é só no Céu! Mas, quem disse que aqui na terra, em nossas celebrações litúrgicas, não podemos sentir o perfume do Céu?!


                Viver o Mistério também é acreditar em uma “liturgia contemplativa”, onde o interior dos fiéis se expressa na voz da assembleia. A intimidade pessoal com Deus gera na liturgia uma experiência coletiva que se manifestará na escuta da Palavra, no silêncio, nos cantos, na Eucaristia, na oração e na partilha. É preciso resgatar uma experiência pessoal na liturgia, longe do intimismo e do subjetivismo, propagado pelo materialismo e o secularismo do mundo. A mística não subtrai a ação, pelo contrário, quanto mais contemplativo for o fiel, mais eficaz será sua ação no seio eclesial.

 

Abração musical de

Wallison Rodrigues



08. "Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe"


Há algum tempo, justamente no “mês missionário”, me inquietava sobre o “canto final” na celebração eucarística. Interessante, no Brasil, o povo tem o costume de cantar um louvor final, solenidade ou não, com ou sem procissão. Mas, ao mesmo tempo, somos informados que às missas ordinárias, não há nada a acrescentar após o “Ite missa est” – ‘Ide em paz e o Senhor vos acompanhe! Graças a Deus’. Às vezes, também pergunto: “Porque reter o povo com mais um canto?”[1].


A riqueza da despedida está no fato de que todos retornem às suas atividades louvando e bendizendo o Senhor em suas boas obras[2]. Ritualmente, a missa termina no “Ide”, mas ela continua realizando-se neste envio. Não é um mero ‘louvor final’, mas é um recordar que o Senhor também se faz presente no mundo, como está sacramentalmente na assembleia eucarística e na comunhão.


Graciosamente temos a oportunidade de estender o “Graças a Deus” até as nossas casas. Mas, parece-me que ainda não aprendemos a apreciar esta arte. Surgem duas questões que ainda carecem ser mais refletidas para além de um rubricismo: 1) Por que segurar o povo com mais um canto? 2) E Por que cantar um louvor final?[3] Significativamente, a dimensão missionária da Igreja está vinculada à liturgia. Pois, como diz o Papa Francisco: “a Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia[4]. Isso, sim, nos chama bastante atenção!


Mas, ‘Missão e Liturgia’, não deve ser unidade somente no mês de outubro, com as mais variadas propostas e Campanhas Missionárias. Por vezes, esquecemos que a Liturgia em si, independente do tempo, é fonte de Missão. Mas, para ser fonte de missão, primeiro ela deve ser lugar da experiência de Deus. O povo canta: “Vai, vai missionário do Senhor... vai trabalhar...”. Realmente, precisamos ser essa “Igreja em saída” de que tanto falamos e cantamos. Mas, o nosso “Ide”, não pode ser de corações vazios: devem estar cheios de Deus!


Ano após ano as campanhas missionárias se repetem, no entanto, às vezes, não geram conversão. Ter uma Igreja cheia de missionários é poder perceber homens e mulheres que fazem experiência profunda e transformadora de Cristo – o divino Mistério celebrado. Haja vista, é nesta celebração litúrgica, conforme Medellín[5], que é possível um compromisso autêntico com a realidade humana – eis aqui dimensão missionária!


Quando o Senhor nos chama a participar do Divino Banquete. da Palavra e da Eucaristia, não nos pede para levar nada, a não ser um coração aberto e disponível. Às vezes, entramos até de mãos e corações vazios. Mas, estamos como diante de uma Mãe que recebe a visita do filho e que jamais os permite sair de sua casa de “mãos abanando”. Carregamos o sabor de Cristo Eucarístico e a vivacidade profética de sua Palavra. Isto é, mais do que um piedade popular ou devoção de fiéis, a Liturgia é a renovação da Eterna Aliança entre Deus e todos os batizados.


A saudação final da Missa, “Ide em paz e o Senhor vos acompanhe!”, expressa tudo isso e, ainda mais... Ressalta aos fiéis que não estão sozinhos: “O Senhor vos acompanhe”. O Senhor acompanha cada cristão em seu trabalho missionário. É um anunciar Cristo com o próprio Cristo. A assembleia é desfeita, mas é prolongada a ação de graças vivida na missa. A vida toda se faz uma ação de graças a Deus e ao próximo.


A liturgia nos convida a viver a missão de batizados: a ação de graças; sendo profetas, sacerdotes e reis. Profetas que revelam o rosto de Deus com a vida. Sacerdotes que oferecem as dádivas, orações e labor ao divino Criador. Reis que constroem, administram e vivem a liberdade em Cristo. Isto é, em Deus fazemos experiência do sentido da verdadeira liturgia.


Quando nossos cantos finais estão eivados de toda essa sensibilidade litúrgica, são úteis a qualquer assembleia. Não precisamos de muita letra, nem de melodias estrambólicas. Mas também pergunto: precisaria de letra melhor do que a própria expressão “graças a Deus”? Haveria uma melodia melhor do que a que exala do coração dos fiéis após terem participado do Banquete Divino?


Ide em paz e o Senhor vos acompanhe! Graças a Deus

 

Abração de

Wallison Rodrigues


[1] Cf. GELINEAU, Joseph. Os cantos da missa no seu enraizamento ritual. São Paulo: Paulus, 2013, p.48.

[2] Instrução Geral do Missal Romano

[3] Aqui não tenho como objeto central responder a estas questões.

[4] Cf. EG, 24.

[5] Cf. Medellín 9,4.



09. Sejamos um para que o mundo creia


Após cinquenta dias celebrando o fecundo e frutuoso mistério pascal, alguns pontos nos chamaram bastante a atenção: propriamente o dado da ressurreição, a descida do Espírito Santo, o testemunho dos discípulos, a união dos fieis e a volta final de Cristo.


Os Atos dos Apóstolos veio ilustrando a compreensão nítida do Evangelho dentro da comunidade. De modo que a Vida Eterna, tão almejada, não seria simplesmente uma mera ilusão. Ao contrário, é algo concreto, que começa no hoje de cada cristão e se eterniza posteriormente em Deus.


O caminho do discipulado não exige coisas extraordinárias. Primeiramente, é um dom divino. Por vir de Deus é simples. Os santos Padres da Igreja acreditavam que é sempre uma estupenda graça de Deus ser testemunha do próprio Cristo – não existe dom maior no discipulado cristão. Haja vista, um dos verdadeiros testemunhos de Cristo se dá na unidade dos fiéis.


O trecho da oração sacerdotal de Jesus (Jo 17), oferecida na última semana do tempo pascal, oferece o sabor do tempo que se aproxima... Clama logo no início para que sejamos um como a Trindade é Una. Ser um como Deus é um. Uma unidade que nos permite sermos fermentos no mundo e ao mesmo tempo, preservarmos a identidade da nossa fé.


Madura é nossa comunidade quando ela é capaz de realizar o encontro pessoal com Deus e o deixa transbordar no encontro pessoal com os irmãos. O primeiro encontro é a base, o fundamento do segundo, enquanto o segundo é o sinal visível e verificável da autenticidade do primeiro.


Ser um para que o mundo creia é a nossa missão. Uma responsabilidade tremenda, na qual poucas vezes pensamos. Mas, com certeza, existem limitações humanas que podem dificultar esta unidade. Existem barreiras que muitas vezes nos impendem de aproximar do irmão. Mas, em uma comunidade cristã, isto não “limitação”, é uma “deficiência”. O maior pecado contra a unidade é quando ele acontece dentro da própria Igreja, que é sinal de comunhão.


A linguagem da unidade não é difícil de ser compreendida, pode ser entendida por todos: doutos e ignorantes, nacionalistas e estrangeiros, cristãos ou não. E é especialmente por isso que a Igreja inteira e cada um dos fiéis tem sempre a necessidade de que Pentecostes se renove. Embora o Espírito esteja presente, é sempre necessário clamar: “Vinde Espírito Santo e enchei os nossos corações” – para que sejamos ‘um’ e o mundo creia.


O Espírito Santo já presente nos fieis, exatamente em força desta sua presença, torna-nos desejosos de recebê-lo com maior plenitude para bem vivermos nossa vocação na unidade e na fraternidade, cujas Mesas diante de nós nos ensinam diariamente.


Por fim, o testemunho que Jesus pede à sua Igreja é, ao mesmo tempo, testemunho de fé, de amor e de unidade. Na oração ao Pai, pediu pelos seus: “santificai-os na verdade”, isto é, sejam tão doados e consagrados à verdade do Evangelho, que estejam prontos a doar a vida. Na mesma oração acrescentou: “sejam perfeitos na unidade”. Por que, o amor mútuo dos discípulos e a perfeita união que dela deriva, devem testemunhar ao mundo que o Filho de Deus fez-se homem e veio trazer aos homens o amor divino.


Por isso, em nossa comunidade, no modo como tratamos nossos irmãos, conseguimos testemunhar o valor do cristianismo? Olhando para o rosto de cada irmão, e pensando no modo como agimos uns com os outros, conseguimos testemunhar a veracidade do Evangelho?


Abração de

Wallison Rodrigues


10. "Bem Aventurados os Pobres":

A vida em tempo de Quaresma


Uma única voz entre nós ressoa: “Convertei-vos e crede no Evangelho!”. São palavras que clamam fidelidade, fazendo memória da nossa consagração àquele que prometeu ser o único Deus (cf. Dt 26,17-19) que cuidaria do seu povo e traria a libertação. Eis que, essas palavras de Moisés ao povo de Israel, hoje, é Vida na vida da gente: Jesus Cristo – o Evangelho – está entre nós! Crer neste Evangelho pressupõe conversão, ou seja, é preciso se esvaziar-se daquilo que é supérfluo à fé, a fim de contemplar o Mistério do Crucificado-Ressuscitado.


Esvaziar-se é em certo sentido se fazer ‘pobre’, Mas, nem sempre ‘pobre’ foi sinônimo de estima. É só lançarmos os olhares fora dos muros de nossas casas para perceberemos o quão medonho é falar de pobre. Em contraposição, muitos pregam que somente são agraciados por Deus aqueles que estão cumulados de riqueza – como sinal da benção divina. Ao certo, atualmente, ricos e pobres, estão se perdendo em um espírito materialista, estando longe de perceber o que são as verdadeiras bênçãos de Deus.


O tempo de quaresma é momento de aproximarmos de Deus, esperando e confiando n’Aquele que é o único Bem da humanidade. Por isso, a Igreja, convida a este tempo de despojamento, de deixar tudo o que diminui o homem, escraviza-o, preenche-o superfluamente, entre outros... Momento de redescobrir aquela pobreza que oferece a disposição interior dos discípulos de Jesus. Isto é, uma pobreza humilde e alegre, repleta de confiança, que deixa o coração livre para amar e servir a Deus.


Às vezes, em muitos dos nossos templos religiosos – em meios às casulas roxas cheias de pedras, brilho e bordados; as túnicas com nobres rendas; as via-sacras em ultra dimensão; os instrumentais e aparelhagens de sons estrondosos; os crucifixos modernos em mais alto estilo; os teatros e concertos esplendorosos – os “pobres em espírito” são ofuscados ou escondidos, gerando obstáculo ao encontro com Deus, ao Evangelho e ao Reino.


Ano após ano, quaresma entre quaresmas, campanhas e campanhas (...), pouca coisa muda. Afinal, o homem continua o mesmo. Aquele mesmo homem que com sede de poder, de status, de bens morais e espirituais é o mesmo que se coloca diante do Altar semanalmente para celebrar a ‘Memória do Senhor’. De segunda a sábado no trabalho, em casa (...), vive esse dinamismo interno ricamente possuidor de si mesmo. É como que se a vida estivesse presente na liturgia e a liturgia não estivesse presente na vida.


Haja vista, Jesus veio anunciar a Boa Nova aos pobres (cf. Lc 4,18). O Evangelho grita “bem-aventurados são os pobres em espírito” (cf. Mt 5,3). Jesus se fez pobre para enriquecer a humanidade com sua pobreza (Cf. 2Cor 8,9). Por isso, vale lembrar que encontrar a face do Deus misericordioso não se dá simplesmente passando inúmeras vezes embaixo da ‘Porta Santa’ – Pressupõe conversão! Para encontrá-lo é preciso despojar o coração e a mente: isso é ser “pobre em espírito”.


Por isso, o caminho da Cruz não é exagero, nem é demasiado, mas é necessário para a ressurreição. Longe da cruz não se vive a ressurreição e fora da cruz não se entende a pobreza. Ter uma alma pobre, um coração humilde e convicto de Deus, é aceitar a conversão e viver/crer no Evangelho. Somente na pobreza poderemos viver bem a esmola, o jejum e a oração, que são caminhos para a Salvação. “Bem-aventurados os pobres em espírito porque deles é o Reino dos Céus” (cf. Mt 5,3).


Para meditar: Como está o meu coração neste tempo quaresmal? O que significa pobre em espírito? De que modo concreto posso me despojar para estar livre para servir a Deus? Como discípulo do Mestre, o que levo para o caminho da Cruz?

Abração musical de
Wallison Rodrigues

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11. Liturgia e Simplicidade de Vida


Nesses dias, ao ouvir e meditar sobre as leituras da liturgia pensava o quão “difícil” é ser cristão. Sim, é difícil! Mas, ao mesmo tempo é algo tão simples. É só lançar o olhar para as primeiras comunidades e para os primeiros cristãos descritos no livro dos Atos dos Apóstolos e na Patrística que nos convencemos.


A mística pascal não nos permite olhar para um cristianismo isolado, perdido em si mesmo, em suas próprias alegrias, tristezas e esperanças. É sempre uma vida em comum, fundamentada na simplicidade da Boa nova.

 

Nota-se que aquela vida chamada de “humilde”, “pacata” e interiorana, está se tornando raridade. Estamos dentro de grandes centros urbanos ou de pequenas cidades maquiadas de grandes cidades. E o povo... Pois bem, alguns se empenham na procura da feliz realização. Outros, dias após dia constatam a velocidade em que o tempo passa – e estes são a maioria. Neste entremeio, percebo três tipos de igreja (comunidade):


1) Às vezes, quando saímos de algumas Igrejas, somos convencidos com a experiência de Adélia Prado. São tantos barulhos, tantos gritos, tantas palavras cabulosas... Saímos com vontade de rezar tudo de novo, de procurar outra Igreja, de “procurar” viver o sacramento novamente.

2) Há outras comunidades que são opostas, com leituras bem proclamadas, cantos bem interpretados, uma presidência muito bem preparada... Mas, fria, “vazia”, sem expressão e dinamicidade.

3) Contudo, também existem comunidades vivas e cheias de simplicidade de fé. Comunidades que já tive a oportunidade de ver e com o coração pude concelebrar. São nestas comunidades que temos a certeza da “alegria do Evangelho”, na ação do Espírito de Deus. Como ouvi de Fr. Fernando Inácio, OFM: “toda Igreja deve ter um Pentecostes!” Isto significa uma comunidade aberta à dinamicidade do Espírito, que é vivificador. Por isso, acredito que toda comunidade deveria receber no âmago da sua existência a graça divina, proveniente da ação do Espírito Santo.

 

Viver na graça de Deus é muito mais que se reunir semanalmente para celebrar a Palavra e a Eucaristia. A comunidade quando vive na graça de Deus, acolhe ser imagem do Filho, Jesus Cristo. Manifesta na claridade as suas escolhas, até o dia em que ela deixará de peregrinar nesta terra e será glorificada, junto de Deus.


Por isso, todo aquele que nasce de Deus – o cristão – tem uma sublime missão: celebrar o mistério da fé. Um celebrar que se dá na vida da Igreja, unida a Cristo Cabeça, que é a nossa vida. O que levar para as celebrações? Cada membro da comunidade deve levar para a reunião litúrgica a sua fé, saborosa e viva, que tem o perfume da vida comum. É tudo isso que enriquece a “degustação” da Palavra e da Eucaristia. É difícil? Sim, mas tão simples! Na verdade, é o Senhor quem nos convida, nos reúne e nos prepara. Somente temos que levar um coração aberto e disponível à graça. Simples assim!


Abração musical de,
Wallison Rodrigues



12. Calar-se diante do Mistério


Convidaram-me a escrever sobre a arte de compor. Interessante, já li muita coisa sobre o assunto, em pouca experiência de vida. Noto que existem palavras direcionadas ao letrista/poeta e existem palavras próprias ao músico/compositor. É um universo da linguagem que parte da questão textual – bíblica – à “rima”. Um mundo musical que vem da própria palavra litúrgica a uma qualidade harmônico-sonora. Ir. Miria T. Kolling, em seu artigo – “O ministério dos compositores”[1] – já nos agraciou bastante sobre esse assunto. Às vezes caímos na tentação de fazer nossas leituras procurando nos textos os métodos práticos para desenvolver tal ofício. Insiste: É preciso de vivência de comunidade! Como os próprios documentos da CNBB[2] tem se preocupado bastante. Alguns já me perguntaram como compor... Estive refletindo e digo que não é só viver e celebrar na comunidade. Só isso, nem sempre nos faz um bom compositor, músico ou poeta. Na maioria das vezes é preciso aprender a “calar”. Talvez o mais difícil!


Estamos num tempo “misterioso”! Às vezes cercado de muito barulho, em que nós somos os sujeitos ativos de tal fenômeno. O ambiente a nossa volta está poluído de falas, de gestos... Onde o ‘silêncio’ na vida se torna sinônimo de ‘solidão’. Em casa após o trabalho, ligamos a TV, o rádio, a Internet, entre outros meios para não sentirmos sozinhos, mesmo em meio às outras pessoas. Viajamos para lindos lugares, encontramos grandes famosos, deparamos com situações inusitadas... Mas não vivemos ou escutamos aquele momento procurando extrair o máximo de suas riquezas. Simplesmente, tiramos foto. Fotos que instantaneamente são postadas em redes sociais. Estas quando muito curtidas/compartilhadas, revelam sinais de que valeu a pena aquela situação ou lugar. Sim, interessante! No entanto, para compor é preciso ir além desta vivência do mundo em que somos assediados a viver na comunidade.


Quando simplesmente observamos e descrevemos o mistério num papel, corremos o sério risco de empobrecê-lo, reduzi-lo, entre outros perigos que se dão por um contato superficial. Existem sentimentos que brotam do momento, talvez pela quantidade de pessoas, ou a força da palavra ou até mesmo pela vibração da comunidade. Mas, isso não é ainda o néctar da manifestação mistérica. É preciso olhar e sentir além. Este exercício se dá com o silêncio. É preciso calar-se diante do mistério e deixar ser interpelado. Não estou falando de um ritual mágico, aonde tudo vai acontecendo sem você se dar conta, com um brilho místico, de luzes e sons. Não! É algo mais comum, muito simples. De tão simples é inexplicável. E aí nos damos conta que o mistério celebrado não cabe numa pauta. Mas, tentamos em nossa fragilidade expressar o que vimos, sentimos e ouvimos.


O mistério na liturgia nos convida a ver – Ele se dá a nós, se manifesta, ele se releva aos nossos olhos, no modo em que nós podemos o compreender; O mistério nos convida a sentir– Ele se faz presente aos sentidos, de um modo muito íntimo e também comunitário. Não me perguntem como senti-lo! Mas, acredito que a cada um, nas possibilidades de cada pessoa, Ele se manifesta a fim de fazer próximo à vida. Por fim, o mistério nos clama a ouvir – Ele quer “falar”, sempre tem algo a dizer... É o momento em que o Espírito que fala em nós. Talvez um modo de se revelar, porque Ele sabe o como e o que dizer a nós. Este último talvez seja a parte mais difícil: aprender a calar. Um silêncio que não é vazio, mas cheio de significado. Um silêncio que se faz em letra e música na vida do compositor. É aqui, neste momento que o Espírito age frutuosamente na missão do poeta/músico.


Por que se calar? Porque o compositor não escreverá para si, ou de si mesmo ou a partir de si... Sempre sobre o Mistério: Deus! Sendo assim, o que escrever? Os sentimentos? Não. Sentimentum, do latim, quer dizer opinião, uma afeição ligada ao sentir. Se a música (poesia e melodia) é um condutor que leva a comunidade à vivência do Mistério, nada melhor do que ela estar intimamente ligada ao próprio Mistério. Por isso, o uso da Sagrada Escritura, lugar onde Ele se revela intimamente a nós. Bem, mas este seria outro assunto.


Por ora, reflitamos: Como me coloco diante do Mistério celebrado? Eu sei me calar? Quando sei que posso falar do Mistério? Neste tempo atual, é fácil encontrar-me com o Mistério? Quais são as minhas experiências? Se você compõe, como você descreveria sua experiência/ministério? Sabia que também para cantar qualquer música é importante se calar diante dela? Já fez essa experiência?


Sugestão de leitura sobre o silêncio: O Silêncio na liturgia: sonoridade de Deus, de Pe. Fernando N. Gioia. Disponível em: http://goo.gl/uX0Yzd


Abraços musicais de
Wallison Rodrigues

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[1]Disponível em: http://www.a12.com/musica/formacao/detalhes/o-ministerio-dos-compositores. Acessado em 12/07/2015.
[2] Por exemplo, cf. Doc. 79 – A Música Litúrgica no Brasil




13. O Canto Pascal: Anúncio de Libertação


 

A vida social, atualmente, está fortemente marcada pelo cenário político. Pergunto: quem ainda não observou, escutou ou leu alguma coisa sobre política nesses dias? Notem-se, são inúmeros meios de comunicação apontando ângulos e perspectivas diversas; são tantas pessoas ousando em julgamentos e conclusões precipitadas, até mesmo tornando instáveis os critérios de análise da realidade social.


Laçaremos algumas pistas de reflexão para compreender Política e Liturgia. Para isso analisaremos A proclamação festiva e libertadora na liturgia (Fasc.01); Depois, se o celebrar a páscoa e o proclamar a libertação, pode ser analisado a partir de um viés político (Fasc.02) e, por fim, entender os mistérios eternos numa sociedade secularizada (Fasc.03).


Por isso, refletir neste tempo as relações entre ‘Liturgia e Política’ parece provocar desconfiança. Diante de tantas injustiças e incertezas, parece que não há motivos para creditar um sinal de esperança. No entanto, o ponto de partida é a fé expressa na proclamação da Palavra na celebração. Neste caso, é possível entender essas relações analisando as palavras proclamadas e a dimensão política da fé e da vida?

 

1.    A PROCLAMAÇÃO FESTIVA E LIBERTADORA NA LITURGIA

 

De princípio, constata-se que muitos cristãos em seus ‘pré-conceitos’, ou até em conceitos formados, empobrecem a linguagem teológico-litúrgica evitando o termo ‘libertação’. Acreditam que é um termo produto de uma teologia revolucionária.  Mas, a priori não se pode negar que a liturgia anuncia uma mensagem de libertação em suas leituras bíblicas, orações, cantos, homilia, oração universal e outros. Não qualquer libertação, mas uma libertação encarnada, intimamente ligada à história da humanidade: a Boa-Nova – Jesus Cristo.


“O mistério pascal de Jesus Cristo, objeto central de pregação e da liturgia, converte-se em mistério de libertação, que leva ao cumprimento todas as prefigurações antigas e constitui garantia do futuro escatológico” (Joan Llopis). Uma libertação que é coerente com a libertação do Êxodo (cf. Ex 13,3-4), ainda que seja superada definitivamente. É uma promessa profética de liberdade plena que se erige em todas as instâncias críticas da realidade.


Somente na história, realidade atual e concreta, ligando passado-presente-futuro, que a liturgia proclama seu dinamismo libertador. É um memorial vivo, é atualização de fatos pela ação do Espírito. É uma ação – urgia – que interpela a comunidade a crer na força da palavra proclamada, recebendo dela as luzes necessárias para iluminar o tempo presente. Afim de que, na esperança, a promessa profética proclamada se realize como garantia de liberdade plena a toda humanidade.


Segundo Jürgen Moltmann, essa experiência de liberdade feita pela fé está na ressurreição de Cristo. Muitos são os cânticos pascais que enaltecem a vitória da vida, zombando da morte. O mais antigo cântico de Páscoa (cf. 1Cor 15,55-57), cantado até os dias atuais, demonstra: “A morte foi tragada pela vitória. Morte, onde está teu aguilhão? Inferno, onde está tua vitória? Porém graças sejam dadas a Deus que nos dá a vitória por Nosso Senhor Jesus Cristo”.


O canto pascal é a festa da libertação, onde o Ressuscitado e a Igreja dançam juntos (cf. Hipócrito). Um canto que não deve ser estranho e remoto aos ouvidos do homem, muito menos do homem secular (cf. R. Alves, Teologia da Esperança). Um canto que traz as preocupações do dia-a-dia, do mundo e da história, sendo sinal de esperança. É isso que a liturgia proporciona num cenário político: Esperança Cristã.

 

Mas o que é política? O que é liturgia? Qual sua relação com libertação? Quais os clamores políticos na sociedade? O culto pode proporcionar algum tipo de resposta?


2.      CELEBRAR A PÁSCOA, PROCLAMAR A LIBERTAÇÃO: UM VIÉS SOCIO-POLÍTICO?[1]

 

Mas, afinal, e sobre política? Pode-se dizer a mesma coisa? Qual é o sentido da palavra ‘política’? Que realidade ela abrange? O que este tema tem haver com a Sagrada Liturgia? Com certeza, são especulações que inquietam e instigam, pois são muito pertinentes. Nota-se que o cenário político está latejando em todas as esferas sociais. Mas, o que ela está clamando? E o que nós cristãos podemos fazer?


Ao certo, nossa vida é uma liturgia – urgia: ação. O cristão neste seu “tempo de silêncio”[2] não pode ter medo. Pois, está imbuído de um silêncio profético que anuncia e denuncia, que clama por libertação, direito e justiça. Ninguém ainda sabe como responder a todas as inquietações que diariamente estão surgindo nos corações humanos. Mas, se a Páscoa é irreversível ao cristão, tudo já pode ser visto com luzes de esperança que antecipam o sabor da plena liberdade escatológica dos filhos de Deus.


Política diz respeito ao bem-estar social de uma realidade concreta, a polis. É algo de responsabilidade de todos. Isto é, política é um exercício/controle de poder que visa o bem-estar e o progresso. São realidades de poder, serviço e autoridade que possuem ligação estreita com o culto, lembrando o senhorio de Cristo que é cósmico, exercendo sobre cada realidade mundana principado e poder (cf. Power/Schmidt – Concilium 1974/2).


O mundo de Cristo expresso na Sagrada Escritura, vai além da ideia de cosmos para os gregos[3] ou de uma civilização romana – república, império. A grande cidade nem é Jerusalém, mas é o Reino de Deus. Um Reino celeste que desceu para a terra, no qual em Jesus Cristo se juntam pedras vivas para completar a Cidade Eterna no último dia (Herman Schmidt).


Os anos vão se passando e o homem vai edificando grandes cidades na terra, centros urbanos autônomos que proporcionam um tipo de felicidade instantânea à humanidade. Atualmente, estamos no século em que as utopias dos antepassados se tornam realidades concretas. Faz-me lembrar do Super-Homem descrito por Nietzsche (Assim falou Zaratustra), onde se apresenta um homem modelo que destrói criticamente o seu passado a fim de alcançar um tipo de liberdade, de desenvolvimento pessoal.


Por vezes, o homem peca no uso deste poder político, desta capacidade de dirigir e organizar, de legislar, fazendo do sistema político uma realidade em si mesma. Sendo que, na verdade, política deveria ser um padrão humano de comportamento, onde que no homem se encontrassem as normas éticas. Quando tudo foge desta ideia a política se constrói como alheia ao homem, impondo-se como um falso deus ou até um demônio que se apodera de um partido, “é uma ditadura desumana entre homens” (H. Schmidt).


A política deve ser um agir humano e entre humanos, promovendo um espaço concreto de valores e ideias, nada de fantasias, utopias e ideologias futuristas. Ela não é anarquia e nem ditadura, mas um espaço que gera equilíbrio àqueles que clamam por libertação, justiça e paz. Contudo, aos cristãos, o Reino dos Céus, politicamente falando, é uma realidade superior. Pois é entendido como uma única família em torno da Trindade. E assim, a política terrena é parte da política divina, como se reza nas doxologia: “Ao Pai, pelo Filho, no Espírito Santo”.


Sendo assim, aos cristãos a política é uma realidade escatológica. Pois, segundo Herman Schmidt, o nosso poder se torna um poder dentro da onipotência do Pai; o nosso dominar torna-se um servir sob o domínio do Senhor, servo de Deus; e a nossa luta de classes torna-se amorosa fraternidade no Espírito, que tudo une. Por isso, é somente na liturgia que essas íntimas aspirações humanas se tornam realidades e o homem se entende como mistério no Mistério de Deus.


Como na política não se trata de sistemas, mas do homem, assim acontece em nossas celebrações litúrgicas. Liturgia é ação – urgia, – serviço para o povo e do povo. A nossa missão hoje é entender que onde a cidade é cristã as portas que ligam o céu à terra estão abertas, a liturgia desce de Deus para a cidade/o povo. Mas, onde a cidade não é cristã, a liturgia deve começar por abrir as portas para que Deus possa entrar e fazer morada.


Atualmente, o homem está mergulhado na agitação das cidades, a vida cristã é fortemente violentada, entre outros. Por isso, antes de qualquer coisa, é preciso que nossa ação litúrgica torne o homem aberto à Deus, deixando que Deus faça sua morada entre nós - os homens. Para que constitua no mundo uma Comunidade do Evangelho, erigida de homens que escutam e meditam a Palavra, a fim de praticar atos de salvação; a fim de que existam normas concretas de comportamento a partir da fé; sobretudo, que dê aos homens a coragem de confrontar a vida pessoal e comunitária com a Vida Divina.


Contudo, essa militância da vida deve ter como ponto central a Cruz de Cristo. Não é dar à cruz um caráter político, essa não é a fé cristã. Mas, é compreender que “a visão escatológica da ressurreição jamais perde de vista a realidade da vida terrena” (H. Schmidt). A cruz está ligada ao fim último do homem e dela não se pode abusar para atingir fins políticos mundanos. O caminho da ressurreição é um caminho da cruz, e ambos os caminhos não pairam por cima da realidade do mundo.


Conforme rezamos na Profissão de Fé, a cruz foi uma sentença de Pilatos, logo é um acontecimento político. Mas, aos cristãos a vida não termina na cruz, ao contrário, neste doce lenho a vida se inicia (cf. Hino Semana Santa/LH). No evento pascal o homem ganha a libertação radical sobre toda e qualquer escravidão. Por isso, é pela cruz que a política, do poder e do domínio, se transforma em uma diaconia política.


O sinal da Cruz une todas as dimensões da fé cristã. Neste sinal se encontra tempo e eternidade, terra e céu, Salvação e bem-estar, cidade de Deus e cidade dos homens. Faz da vida política, ocupada do bem-estar terreno, um caminho marcado pela força da esperança (cf. Rom 8,24-25). “A cruz da fé e a fé na cruz são o sinal duma legítima liturgia política” (H. Schmidt).


A liturgia política convida à conversão – metanóia – não permitindo que as promessas de um “novo céu e nova terra”, onde habita a justiça, perca seu entusiasmo (cf. Apc 21,1-7). Isto é, uma liturgia otimista frente às preocupações políticas. Pois, se a Páscoa é irreversível, a fé, a esperança e a caridade estão voltadas para o Eterno, o Último, a Consumação final.


O canto pascal canta a possibilidade de começar aqui na terra o Reino dos Céus – a Cidade Celeste. Por isso, já canta e louva a libertação como uma ação de graças a Deus que age na história. A liturgia vê o mundo no seu âmago, admira e compreende a bondade de Deus (cf. Gn 2) na alegria de que melhores oportunidades de prosperar e realizar a paz e a justiça brotarão qual riacho que não seca (cf. Am 5,24).


3.      OS MISTÉRIOS ETERNOS NUMA SOCIEDADE SECULARIZADA

 

Por fim, para concluir estas nossas reflexões, vimos que é possível pensar ‘Política e Liturgia’ na vida; pois há uma dimensão política da liturgia. Mas, como isso se dá na prática? A celebração poderia assumir um lugar de engajamento e de crítica?


A liturgia em si não é política, mas os homens concretos que dela participam estão ligados à cidade e ao que nela compete; há um determinado tempo e lugar em que ela acontece. Por isso, à luz do Evangelho, a liturgia pode inspirar na consciência atitudes e aspirações políticas. É na história que o Evangelho é anunciado, convidando a cantar e celebrar a libertação pascal.


O Missal Romano propõe orações para as diversas circunstâncias da realidade (Missa para as Diversas Necessidades). A própria oração da comunidade (preces/oração universal) está imbuída das necessidades atuais da Igreja e do mundo. A própria Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, apresenta a visão de uma Igreja para o mundo. Não estamos errados ao refletir sobre tal temática. Mas, ao mesmo tempo não estamos certos de que os cristãos têm-se conscientizado de suas responsabilidades sócio-políticas.

Não é preciso aludir em tudo à política – é impróprio, ingênuo e ignorante pensar assim. Pois, “uma liturgia sem nenhuma alusão política pode ter uma significação política tão forte que os poderes públicos se creiam obrigados a proibi-la ou são, inversamente, inclinados a servir-se dela” (J. Gelineau). Tematizar a liturgia gera mal-estar, inclina o presidente a fazer do presbitério um palanque ou do rito uma campanha política. Sendo que, isso não gera conversão e libertação.


O Mistério Eterno celebrado não produz na sociedade efeitos instantâneos, imediatos. Não é no Templo que aconteceram as militâncias pela justiça e pela libertação dos mais fracos. A celebração da Páscoa é uma festa (cf. Hb 12,22), marcada pelos seus cantos de júbilo. Logo, quem festeja não está trabalhando. Haja vista, liturgia é uma ação simbólica que instaura um ser novo, uma nova história. E é neste ser que está poder político, isto é, a libertação dos homens pelo Cristo Ressuscitado.


A liturgia oferece um alimento – sacramento – eficaz para a fé no Reino dos Céus. Ela não é eficaz como a Campanha Contra a Fome (Fome Zero[2]), do Agasalho, de Moradia, entre outras, que proporcionam “efeitos imediatos”. Por exemplo, o Abraço da Paz ou o Ato Penitencial não resolve as guerras e tensões entre os membros da comunidade. Por isso, “a suprema política é antes de tudo a festa que nos faz viver acima de nossos meios” (H. Cox).


No entanto, a celebração não é mitologia ou utopia. É para os homens se converterem e se libertarem realmente neste mundo. Como? Em pequenos gestos: acolhendo uns aos outros no amor do Ressuscitado; ouvir a interpelação da Sagrada Escritura como resposta a vida; rezar/interceder pelos outros e atualizar a ação de graças, fazendo a libertação pascal sempre atual.


A política dos homens não pode fazer o Reino de Deus. Mas, Deus pode fazer vir seu Reino (cf. Mt 6,10) para aqueles que acolhem sua vontade, sua justiça e seu amor. É importante que a celebração expresse o seu caráter libertador já inaugurado por Cristo, mas que ainda não é a salvação universal a nós prometida. É celebrando nossa libertação em Cristo que somos levados a contestar tudo aquilo que aliena, que gera corrupção, que impede os homens de serem eles mesmos.


Esta liturgia política que falamos canta, como Mirian, a passagem da servidão para o serviço (P. de Béthumes). Pois, “virá o dia em que todos ao levantar a vista, veremos nesta terra reinar a liberdade”, a justiça e o direito. Que jamais a humanidade ouse trocar seus instrumentos que harmonizam o canto pascal por armas que gerem violência e discórdia. Mesmo que ainda estejamos na agonia da Cruz, como cristãos, sabemos que a Vitória da Ressurreição é certa.

 

 

Até o próximo encontro!
Um Abração cheio de esperanças,

Wallison Rodrigues



[1] Tomo a liberdade de usar algumas ideias e citar diretamente o teólogo Herman Schmidt, SJ (Roma/Itália), que já em 1974 apresenta pertinente reflexão sobre algumas normas sociais de comportamento na liturgia. Depois, indiretamente, apresento contribuições de Jürgen Moltmann e Joseph Gelineau, que também em alguns escritos se debruçaram sobre a temática ‘Política e Liturgia’.

[2] Programa do Governo Federal Brasileiro.